Marcos Mariamo

 Fui um aluno anormal

 

Por um lado tenho certeza que fui um aluno chato, questionador, mas por outro creio que minha chatice me fez ganhar tesouros inesquecíveis ao longo do caminho, talvez a admiração de alguns e com certeza o desdém de outros que me viam como o metido. Digo essas palavras, pois dia após dia me convenço de uma grande verdade: fui um aluno anormal.

Lembro-me como hoje o dia que um fato abalou minhas ilusões com relação ao estudo. Estava na antiga quinta série quando uma menina, que estava fazendo a série pela segunda vez inventou de perguntar-me: Qual a média aqui nesta escola? Olhei-a com ar de estranheza e disse que não sabia o que era isso. Ela sorriu de canto da boca e disse: É a nota que a gente precisa tirar para passar; a nota mínima para ser aprovado. Aquilo foi minha primeira grande descoberta escolar. Nunca tinha pensado que poderia haver uma nota para passar de ano. Eu gostava de estar na escola, de aprender, de ver o que a professora tinha para nos ensinar. Nota? Nem me preocupava com isso. Respondi que não sabia sorrindo meio desconcertado, como se eu tivesse a obrigação de saber a resposta, mas fui salvo por um outro colega, que por sua vez, ainda que não muito certo respondeu a menina.

Como toda descoberta, creio que esta tenha mudado algo em minha vida ao longo de meus anos de estudo mesmo que eu não tenha me dado conta disso por um longo tempo. Se existia uma nota mínima para ser atingida, tinha que haver uma nota máxima e era sobre essa nota que eu debruçava meus esforços: quanto mais próximo dela, mais feliz eu me sentia. E como isso não era de grande dificuldade meu interesse passou a ser colecionar dez. Não que eu tivesse boletim de gênio, mas tive vários para satisfazer meu contento.

Calma, não estou fugindo do assunto. Quis apenas explicar um pouco de minha história de aluno para comparar com a versão atual dos fatos: Quantas vezes vi alunos festejando uma média. Como professor procuro dar a chance de meus alunos não ficarem apenas com a média, dou a chance de mais um trabalho, uma prova ou coisa do gênero e eles me retrucam dizendo: Não, já está bom. Passei. Outros brigam comigo: Mas professor, por que o senhor pediu este trabalho se eu já passei! Ah, não vou fazer esse teste não, já tenho a média! — E um monte de outras coisas mais e menos cabeludas que já ouvi ao longo destes anos de magistério.

Que cultura é esta, lhes pergunto, meus amigos? O importante para esta gente é só passar? Minha anormalidade é tamanha que fico pasmado com a falta de perspectiva, com o nível MÉDIO de pensamento dos alunos. Não importam as condições, ou o que foi feito, ou o que pode ser feito para melhorar, se a MÉDIA foi atingida o mundo está no seu devido lugar e o universo está em paz.

Este nível de pensamento é tão pequeno que chega a me deixar irritado. Como pode alguém querer o mínimo para si?! Por vezes tenho vontade de dar uns sacodes, uns gritos em sala para ver se os alunos de hoje acordam, pois a meu ver eles dormem... Recuso-me a acreditar que este pensamento de zumbi seja o pensamento de uma pessoa de verdade, que tem vida, é ativa e cheia de energia e que ainda tem uma história toda para percorrer!

Será que estou sendo catastrófico demais? Talvez esteja, mas neste momento penso que talvez não tenha sido eu o anormal. Quem sabe minha geração foi anormal e as idéias mudaram tão rapidamente que eu me sinta como um dinossauro agora. Gostaria de conversar com meus amigos, com meus professores para tirar a dúvida, mas eles estão um pouco longe e já é um pouco tarde para este tipo de bate-papo...

Contudo, devo confessar que tenho medo. Tenho medo do que uma geração de MÉDIA pode produzir para as gerações futuras, ou pior: o que eles podem deixar de produzir.

 

Marcos Mariamo 21/07/10

 

O melhor que a vida nos proporciona é o amor, o encantamento, a magia... Sem isto a vida se torna vazia e tudo o de melhor que conseguirmos se torna frívolo.

Cada nova experiência, cada cotidiano momento precisa ser vivido com amor, ou será apenas um peso, uma tarefa árdua a ser cumprida no caminho de nossa existência.

Não importa o que você quer, ou os caminhos que precisa percorrer, levante o olhar, abra um sorriso e siga amando cada detalhe, pois no final você terá encontrado o melhor que a vida pode lhe proporcionar.

Marcos Mariamo (01/05/2010)